terça-feira, 31 de maio de 2011

"Ao vencedor, as batatas": Quincas Borba e a filosofia do Humanitismo


Joaquim Borba dos Santos, o Quincas Borba, se dizia um "Humanitas", adepto da Filosofia do Humanitismo, pregada por ele próprio. Rubião não entende bem dessa filosofia, então Quincas decide utilizar-se de uma história para fazê-lo compreender, e também esclarecer os fatos aos leitores. No início do sexto capítulo, Quincas descreve o falecimento de sua avó a Rubião, que toma este acontecimento como uma desgraça. Porém, Quincas Borba afirma que não era uma desgraça e começa a explicar-lhe o princípio da filosofia: "Humanitismo é o remate das cousas (...) Humanitas é o princípio (princípio indestrutível)". Segundo Quincas, não há morte, há a "expansão de duas formas", logo, "há vida, porque a supressão de uma é princípio universal e comum". Eis que surge a famosa história das batatas.

"Ao vencedor, as batatas". Pode-se falar do Humanitismo como sendo uma alegoria do darwinismo, o mais adaptado sobrevive, mas aí a ciência vira piada, afinal, no Brasil tudo é motivo de chacota, sátira, escárnio, tudo vira motivo de troça. Podemos ainda afirmar que o Humanitismo de Quincas Borba é uma sátira ao positivismo. Sigamos com o episódio. Rubião custa a entender questiona: "mas e a opinião do exterminado?", já que, quem vence/extermina o outro leva as "batatas", Quincas o surpreende dizendo que não há exterminado. "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas". Para explicar melhor (ou não) a questão do exterminado, Quincas continua: "Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias". Rubião, sem aceitar, questiona novamente, "bem, a opinião da bolha...", mas é cortado por Quincas Borba: "Bolha não tem opinião".

Segundo a filosofia, a forma vira conteúdo, e o conteúdo vira forma. Isto é Humanitas. Vale lembrar que Quincas Borba é um realista que gosta de invocar métodos do romantismo. Entretanto, podemos ver o Humanitismo como um egoísmo disfarçado, um egoísmo com ações altruístas. Conforme cita Antonio Cândido em "Esquema de Machado de Assis", a transformação do homem em objeto do homem, do sadismo, do simples egoísmo, está ligada ao Humanitismo, à filosofia de Quincas Borba. Com o falecimento de Quincas Borba, mais à frente, no capítulo onze, é que Rubião parece compreender essa filosofia das batatas que tanto falamos. Rubião, que "começa como simples homem", se torna manipulado. Mas estes são outros quinhentos

"No fim, pobre e louco, ele morre abandonado (Rubião); mas em compensação, como queria a filosofia do Humanitismo...". (CÂNDIDO, Antônio; Vários Escritos, Esquema de Machado de Assis).

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