segunda-feira, 11 de abril de 2011

Quem é o estrangeiro?

Albert Camus tenta nos contar a história de um homem que aceita morrer pela verdade no livro “O Estrangeiro”
O romance se passa em Argel, capital da Argélia (na época em que ainda era colônia francesa) e tem como personagem principal de sua trama um homem chamado Meursault. Esse homem vive o absurdo, vive sem ilusões, mas quer viver. Para ele o que importa é “o aqui” e “o agora”, ele vive o presente pelo presente. Meursault é um pied-noir (termo francês que designa aquele que é francês e vive numa colônia, no caso a Argélia, e que traduzido ao pé da letra significa “pé sujo” ou “pé negro”).

A narrativa começa com Meursault contando ter recebido um telegrama a respeito do falecimento de sua mãe. Meursault havia colocado a Sra.Meursault três anos atrás num asilo na cidade de Marengo, próxima a capital Argel, e precisou ir a essa cidade para comparecer ao enterro. Para alguns, Meursault reage com muita frieza perante a situação, mas para ele “tanto faz”, ter dormido durante o funeral de sua mãe “não quer dizer nada”.

Meursault vive o absurdo, o real é inatingível para ele. Para Albert Camus, um homem que não chora no funeral de sua mãe corre o risco de ser sentenciado à morte. O estrangeiro é o homem em face do mundo. Meursault pode ser classificado como estranho, ou como estrangeiro, pelo fato de ser honesto. Ele é um homem que não mente, é um homem que não joga o jogo social.

Pode ser observada ao longo da narrativa a presença do sol, do calor, da claridade. Há horas em que o sol é um “amigo”, mas há horas em que o sol lhe dá uma “bofetada”. Ao viajar para Marengo, Meursault conta que fazia muito calor e a luminosidade da estrada e do céu contribuiu para que ele adormecesse. O que pode nos intrigar é que, um dia após o falecimento de sua mãe, Meursault inicia um relacionamento com Marie. Porém, para ele o sentimento amoroso não fazia sentido, pois só o presente é que vale. Uma vez Marie perguta se ele a ama, ele respondeu que isso nada queria dizer, mas que não a amava.

É possível notar no livro um preconceito contra os árabes. Podemos representar esse preconceito como sendo a voz do colonizador e do árabe. Meursault acaba se tornando “amigo” de Raymond, seu vizinho que possuía uma amante árabe. Aí começa o envolvimento de Meursault com os árabes. Raymond demonstra grande admiração por Meursault e logo o convida para passar um domingo na casa de praia de seu amigo Masson. No caminho, um grupo de homens árabes fica observando Raymond, Meursault e Marie.

É na praia que acontece o homicídio. Masson, Raymond e Meursault deixam as mulheres na casa, Marie e a esposa de Masson, e vão caminhar na praia. No meio do percurso o mesmo grupo de árabes aparece na frente deles. A briga acontece e Raymond se fere. Depois de voltar para a casa de Masson, Raymond resolve andar novamente e Meursault o segue. Agora Raymond carregava um revólver, então que eles encontram os dois árabes da briga anterior. Raymond queria disparar o revólver e acabar logo com aquilo, mas ele acaba entregando a arma para Meursault. Os árabes fogem ao ver a arma.

Raymond e Meursault voltam para a casa da praia. Aí aparece novamente o calor e o sol, que fazem Meursault voltar à praia e, por acaso, encontra o mesmo árabe sozinho. Então que acontece o homicídio. Induzido pelo calor, pelo brilho do sol e pelo reflexo de luz vindo da faca do árabe que Meursault dispara cinco vezes, matando o árabe. O fato de Meursault não se arrepender do que fez, de não sentir remorso por ter assassinado o árabe, pesa mais do que o próprio assassinato. Podemos considerar então que Meursault é condenado à morte mais por causa de sua frieza em relação ao falecimento de sua mãe e por causa do não-arrependimento do que pelo homicídio. O argumento do promotor é que, se Meursault não consegue sentir remorso pelo ato cometido, ele representará perigo à sociedade e deverá ser executado para evitar novos crimes.

Na prisão, Meursault deixa de ser o “homem absurdo” onde a essência da vida é simplesmente viver. Para Meursault, ser julgado e sentenciado à morte é indiferente, não faz sentido, pois, para ele não existe algo que possa explicar todos nossos atos. Ao permanecer na prisão, Meursault se “revolta” com a indiferença do universo em relação à humanidade. No final do romance Meursault se irrita com o capelão da prisão, que insistia em fazê-lo acreditar em Deus. O capelão quis se certificar, perguntando se Mersault acreditava em Deus, ele apenas respondeu que isso parecia não ter importância.

Termino com o trecho final do livro, muito representativo, onde Meursault prepara-se para a execução, e diz que foi feliz:

“Como se essa grande cólera tivesse lavado de mim o mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de signos e estrelas, eu me abria pela primeira vez è terna indiferença do mundo. Ao percebê-la tão parecida a mim mesmo, tão fraternal, enfim, eu senti que havia sido feliz e que eu era feliz mais uma vez. Para que tudo fosse consumado, para que eu me sentisse menos só, restava-me apenas desejar que houvesse muitos expectadores no dia de minha execução e que eles me recebessem com gritos de ódio”.

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