sexta-feira, 18 de março de 2011

Na pele de um turco

No livro “Cabeça de turco: Uma viagem aos porões da sociedade alemã”, o jornalista alemão Günter Wallraff consegue transmitir as diversas sensações inimagináveis pelas quais os imigrantes passavam na Alemanha da década de 1980. Günter Wallraff se coloca na pele de um imigrante turco. Para isso ele precisou do auxílio de peruca de cabelos negros, bigode, lentes de contato escuras e até mesmo “desaprender” a falar corretamente o idioma alemão para se transformarem Ali Sinirlioglu, um dentre os milhares de imigrantes turcos da Alemanha.

O livro foi publicado em 1985, após dois anos de intensa apuração e investigação, assim como experiências jamais vivenciadas antes pelo alemão. Günter virou Ali em 1983, e a partir de então se submeteu aos tipos de trabalhos sujos e pesados aos quais os outros milhares de imigrantes têm de passar para poder sobreviver na Alemanha. Na pele do turco Ali Sinirlioglu, Günter consegue fazer os leitores perceberem quão desumanas as pessoas podem ser em relação aos supostamente inferiores, tudo isso tomando como base o preconceito, no caso do estrangeiro Ali, a xenofobia.

Para expor os problemas sofridos pelos imigrantes, em especial os turcos, “Cabeça de Turco” é dividido por capítulos que contam episódios chocantes e ao mesmo tempo interessantes. Devido à exposição do que ocorre em cada serviço que eles precisam realizar em meio à humilhação, o livro obtém o caráter de uma denúncia social. Ou seja, ele mostra aos cidadãos alemães como as coisas realmente ocorrem e quem acaba fazendo o trabalho sujo, recebendo muito pouco e correndo risco de vida em algumas ocasiões.

Günter Wallraff conseguiu passar a essência do livro. “Cabeça de turco” propicia uma leitura muito interessante e rápida. É um livro muito bom e muito bem escrito. Isso porque o jornalista alemão viveu de fato na pele do personagem Ali Sinirlioglu, e não só escreveu o livro com base em entrevistas e depoimentos. Como Ali, Günter precisou trabalhar e ser tratado com desprezo pelos chefes e outros operários alemães para perceber a realidade: preconceito, desrespeito e humilhação.

Uma passagem interessante do livro é quando Ali participa de uma conversa entre três trabalhadores alemães: Michael, Udo e Alfred. Os alemães, com a exceção de Michael, deixam aparente o total desprezo pelos imigrantes e ressaltam que “As coisas deviam ser como no tempo de Hitler. Aí, sim, a Europa estaria em ordem”. E Ali, como bom jornalista que é Günter Wallraff, instiga os alemães a continuar a discussão, indagando cada vez mais sobre o que Hitler havia feito com os judeus, a causa de ele ter tomado tais decisões e se ele faria o mesmo com os turcos naquela época. É genial.

O mais impressionante nesta bela obra do jornalismo investigativo é que ninguém descobre a verdade por trás de Ali Sinirlioglu. Günter “interpretou” muito bem o operário turco e seu disfarce não foi desmascarado. Fato determinante para isso foi o seu jeito de falar o alemão, eliminando artigos, errando nos verbos, ou seja, falando como um verdadeiro gastarbeiter (trabalhador estrangeiro). “Cabeça de Turco: Uma viagem aos porões da sociedade alemã”, de Günter Wallraff é um livro-reportagem que vale a pena ser lido.

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