quarta-feira, 2 de março de 2011

A Hiroshima que poucos viram

John Hersey nasceu na China em 1914 e mudou-se para os Estados Unidos em 1925. Ele estava escrevendo uma grande reportagem para a revista The New Yorker, uma reportagem que mostraria a todos o horror e o caos causados pela bomba nuclear jogada na cidade japonesa de Hiroshima. Essa grande matéria teve uma repercussão enorme e acabou sendo publicada também em forma de livro-reportagem, um livro excelente, por sinal.

Hersey localizou seis sobreviventes do bombardeio, quatro homens e duas mulheres: um religioso alemão, Wilhelm Kleinsorge, dois médicos japoneses, Dr. Masakuzo Fujii e Dr. Terufumi Sasaki, o Revenrendo Kiyoshi Tanimoto, Srta. Toshiko Sasaki e Sra. Hatsuyo Nakamura. Depois disso, Hersey induziu-os a contar tudo o que viram, sentiram, fizeram, pensaram e sofreram. Ele entrelaçou os seis depoimentos dos sobreviventes, que se cruzaram com freqüência ao longo do livro. Ao fazer isso, o autor conseguiu proporcionar maior grau de realismo ao livro, à matéria e, ao mesmo tempo, não chegou a ser sensacionalista.

Os capítulos de “Hiroshima” são dispostos de acordo com a ordem dos acontecimentos. Ou seja, um capítulo para descrever a rotina anterior à explosão da bomba (Um clarão silencioso), um capítulo para descrever a confusão imediata decorrente da explosão (O fogo), um capítulo mostrando como tudo aconteceu após os japoneses terem descoberto o que de fato havia ocorrido e suas reações (Investigam-se os detalhes), um capítulo para mostrar como ficou a cidade após a catástrofe e o início da reconstrução (Flores sobre ruínas) e um capítulo mostrando o que aconteceu depois de passados 40 anos, a trajetória das pessoas (Depois da catástrofe).

Contextualiza o relato dos seis sobreviventes num quadro maior, mostra a todos o verdadeiro impacto da bomba em Hiroshima e conscientiza as pessoas da tragédia ocorrida. John Hersey torna mais evidente o sofrimento dos japoneses e o número de mortes. Hiroshima tem forte caráter jornalístico, resultado de muita apuração, o livro-reportagem apresenta muitos dados reais.

O fato de Hersey não ter procurado nenhuma autoridade, seja ela americana ou japonesa, é porque não são fontes muito confiáveis. Isso porque as autoridades norte-americanas procurariam amenizar ao máximo a intensidade da bomba, eles não iriam dizer a pura verdade, mas sim tentariam escondê-la; enquanto as autoridades japonesas não queriam se envolver intensamente com o ocorrido, deixando assim certa lacuna. As autoridades queriam ser o mais cautelosas possível. Isso torna o livro mais “humano”, com o “povo” contando o que aconteceu. O horror aparece individualizado, com rosto. Com isso o livro passa a ser mais literário, mas não deixando de ser jornalístico.

O livro tem forte apelo emocional, mostra o sentimento das pessoas em relação à tragédia que aconteceu. Fica presente o ódio aos americanos sentido pelos japoneses, fica a marca do horror. Já no seu desfecho, no capítulo 5, que foi feito depois de 40 anos da explosão, tem um caráter mais noticioso, é dotado de muitas informações, o que é resultado de uma boa apuração jornalística. Mas é claro que o desfecho do capítulo 5 não deixa de ser emocional, não esconde os sentimentos das pessoas. Mostra também a vida das pessoas e a cidade de Hiroshima reconstruídas. E, hoje, são criadas bombas cada vez mais poderosas, o que nos faz crer que o mundo não aprendeu nada com o que aconteceu em Hiroshima. Os dados sobre armamentos nucleares e a corrida armamentista revelam a posição anti-nuclear de Hersey.

Os fatos de Hiroshima são narrados de acordo com a ordem dos acontecimentos, dentro de cada capítulo, mostrando o que cada um dos seus personagens estava fazendo antes da explosão, durante a explosão e depois dela.

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