quinta-feira, 24 de março de 2011

A democracia dos brasileiros

Não costumo falar sobre política, mas aí vão alguns pitacos que rascunhei. Posso estar falando alguma besteira (ou não), por isso, não se ofenda.

A democracia, para que fique bem entendido, é uma forma de governo na qual os poderes e responsabilidades são exercidos por todos os cidadãos, isso diretamente ou por meio de seus representantes, escolhidos e eleitos pelos votos da maioria. Existem diversas formas de democracia, a que vigora no Brasil, ou deveria vigorar de fato, é a democracia representativa.

Então os representantes são escolhidos pelo povo nos pleitos. Na teoria, esses tais representantes, deveriam acatar as vontades dos cidadãos, tomar as decisões com base nos princípios e idéias estabelecidos previamente por eles. Mas não é o que acontece na prática, tomando o Brasil como exemplo. Os representantes, depois de escolhidos, muitas vezes deixam de cumprir o que foi prometido ao cidadão, que vê, assim, seu voto de confiança jogado fora.

Analisando a palavra democracia, de origem grega, temos a junção de dois termos: dêmos, que significa “povo”, e kratía, que significa “força, poder”. Logo, o que deveríamos ver seria essa força do povo, esse governo exercido pela força do povo. Quando o indivíduo vota, escolhe seu candidato para representá-lo nas decisões governamentais, ele realiza seu dever de cidadania, e espera um retorno por parte do seu representante, um retorno positivo.

Assim, no Brasil, o povo acaba por ter sua cidadania anulada pelos maus representantes que não executam a democracia de forma correta e sensata. O grande problema na democracia dos brasileiros é que os escolhidos não desempenham seu papel no governo a favor dos cidadãos, de acordo com a vontade deles, como deveria ocorrer de fato. Mas também há aqueles que encaram como uma brincadeira, que votam sem consciência, e acabam elegendo verdadeiros palhaços para os cargos políticos.

Os cidadãos, quando fazem parte de uma democracia, têm o direito e o dever de participar do sistema político, ter sua voz ouvida e vontades atendidas. "A democracia se estabelece quando os pobres, tendo vencido seus inimigos, massacram alguns, banem os outros e partilham igualmente com os restantes o governo e as magistraturas", afirma Platão, em República. Mas, infelizmente, não é como as coisas acontecem no nosso país.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Na pele de um turco

No livro “Cabeça de turco: Uma viagem aos porões da sociedade alemã”, o jornalista alemão Günter Wallraff consegue transmitir as diversas sensações inimagináveis pelas quais os imigrantes passavam na Alemanha da década de 1980. Günter Wallraff se coloca na pele de um imigrante turco. Para isso ele precisou do auxílio de peruca de cabelos negros, bigode, lentes de contato escuras e até mesmo “desaprender” a falar corretamente o idioma alemão para se transformarem Ali Sinirlioglu, um dentre os milhares de imigrantes turcos da Alemanha.

O livro foi publicado em 1985, após dois anos de intensa apuração e investigação, assim como experiências jamais vivenciadas antes pelo alemão. Günter virou Ali em 1983, e a partir de então se submeteu aos tipos de trabalhos sujos e pesados aos quais os outros milhares de imigrantes têm de passar para poder sobreviver na Alemanha. Na pele do turco Ali Sinirlioglu, Günter consegue fazer os leitores perceberem quão desumanas as pessoas podem ser em relação aos supostamente inferiores, tudo isso tomando como base o preconceito, no caso do estrangeiro Ali, a xenofobia.

Para expor os problemas sofridos pelos imigrantes, em especial os turcos, “Cabeça de Turco” é dividido por capítulos que contam episódios chocantes e ao mesmo tempo interessantes. Devido à exposição do que ocorre em cada serviço que eles precisam realizar em meio à humilhação, o livro obtém o caráter de uma denúncia social. Ou seja, ele mostra aos cidadãos alemães como as coisas realmente ocorrem e quem acaba fazendo o trabalho sujo, recebendo muito pouco e correndo risco de vida em algumas ocasiões.

Günter Wallraff conseguiu passar a essência do livro. “Cabeça de turco” propicia uma leitura muito interessante e rápida. É um livro muito bom e muito bem escrito. Isso porque o jornalista alemão viveu de fato na pele do personagem Ali Sinirlioglu, e não só escreveu o livro com base em entrevistas e depoimentos. Como Ali, Günter precisou trabalhar e ser tratado com desprezo pelos chefes e outros operários alemães para perceber a realidade: preconceito, desrespeito e humilhação.

Uma passagem interessante do livro é quando Ali participa de uma conversa entre três trabalhadores alemães: Michael, Udo e Alfred. Os alemães, com a exceção de Michael, deixam aparente o total desprezo pelos imigrantes e ressaltam que “As coisas deviam ser como no tempo de Hitler. Aí, sim, a Europa estaria em ordem”. E Ali, como bom jornalista que é Günter Wallraff, instiga os alemães a continuar a discussão, indagando cada vez mais sobre o que Hitler havia feito com os judeus, a causa de ele ter tomado tais decisões e se ele faria o mesmo com os turcos naquela época. É genial.

O mais impressionante nesta bela obra do jornalismo investigativo é que ninguém descobre a verdade por trás de Ali Sinirlioglu. Günter “interpretou” muito bem o operário turco e seu disfarce não foi desmascarado. Fato determinante para isso foi o seu jeito de falar o alemão, eliminando artigos, errando nos verbos, ou seja, falando como um verdadeiro gastarbeiter (trabalhador estrangeiro). “Cabeça de Turco: Uma viagem aos porões da sociedade alemã”, de Günter Wallraff é um livro-reportagem que vale a pena ser lido.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Crime e Castigo no Acre


“Chico Mendes: Crime e Castigo”, de Zuenir Ventura, é um livro que propicia uma leitura muito interessante. Por meio desse livro Zuenir nos conta a história do assassinato de Chico Mendes, líder sindical e ambientalista, ocorrido no Acre em 22 de dezembro de 1988, mais especificamente na cidade de Xapuri.

Como na maioria dos casos de livros-reportagem, esse também foi primeiramente apenas uma seqüência de reportagens que, depois de juntas, vieram a compor um livro. Para explicar melhor ao leitor a história de Chico Mendes, o autor preferiu dividi-lo em três partes, são elas: o Crime (parte 1), o Castigo (parte 2) e Quinze anos depois (parte três). Em seu livro, Zuenir Ventura revela a luta travada pelos seringueiros no Acre.

Zuenir Ventura vai ao Acre em 1989 para conferir como exatamente aconteceu o crime, para então nos contar a primeira parte do livro: o Crime. O autor viaja para Xapuri dois meses após o assassinato de Chico Mendes. Equipado com o instinto que cada repórter possui, Zuenir Ventura “sujou seus sapatos”, como sugeriu Gay Talese no seu livro “Fama e Anonimato”, investigando cada detalhe e entrevistando todas as pessoas que poderiam ter uma relação com crime.

Chico Mendes sabia que seria morto cedo ou tarde, que era uma questão de tempo. Ele foi morto por uma causa, pela diferença entre “classes”: os seringueiros e sindicalistas contra os fazendeiros. Darly Alves da Silva, um fazendeiro, foi impedido de derrubar as árvores de um seringal que ficava nas suas terras por um empate realizado por Chico Mendes e seus companheiros. Foi aí que começou a implicância entre os dois.

Darci Alves Pereira, filho de Darly, assassinou Chico Mendes com um tiro ensurdecedor. Para Ilzamar, esposa de Chico, “foi um estouro, um tiro tão violento que estremeceu a casa”. O dano estava feito e não restava mais nada a fazer naquele momento. Mas com a morte de Chico surge um sentimento nos seringueiros: o de fazer justiça e lutar pelos seus direitos.

Na segunda parte, o Castigo, Zuenir Ventura voltou ao Acre em 1990 para acompanhar o julgamento dos suspeitos do assassinato de Chico Mendes.
Uma peça fundamental dessa parte do livro é o jovem Genésio Ferreira da Silva. Um garoto que vivia na fazenda de Darly e que sabia do que acontecia na Fazenda Paraná.

Zuenir Ventura acompanha os depoimentos dos acusados do crime, pai e filho. Darly foi acusado como sendo o mandante do assassinato e Darci como o que deu o tiro e tirou a vida de Chico Mendes.
Porém, há diferentes versões do crime. Quando Darci se entregou, logo após ter cometido o assassinato, contara uma versão às autoridades, mas no depoimento realizado para o julgamento contou uma história completamente diferente da primeira.

Tanto o pai quanto o filho foram condenados a 19 anos de prisão pelo crime contra a vida de Chico Mendes.
O seringueiro acabou se tornando um mártir. E seus “seguidores” continuaram lutando e, creio que com mais intensidade, após sua morte.

A terceira parte acontece um tempo depois. Quinze anos depois do crime, para ser mais exato.
Em 2003, Zuenir volta novamente ao Acre para verificar o que mudou por lá após o julgamento. “O Acre avançou. Os interesses conflitantes hoje são resolvidos com diálogo, não mais à bala”, declara Ilzamar. Pelo visto muita coisa mudou.

quarta-feira, 2 de março de 2011

A Hiroshima que poucos viram

John Hersey nasceu na China em 1914 e mudou-se para os Estados Unidos em 1925. Ele estava escrevendo uma grande reportagem para a revista The New Yorker, uma reportagem que mostraria a todos o horror e o caos causados pela bomba nuclear jogada na cidade japonesa de Hiroshima. Essa grande matéria teve uma repercussão enorme e acabou sendo publicada também em forma de livro-reportagem, um livro excelente, por sinal.

Hersey localizou seis sobreviventes do bombardeio, quatro homens e duas mulheres: um religioso alemão, Wilhelm Kleinsorge, dois médicos japoneses, Dr. Masakuzo Fujii e Dr. Terufumi Sasaki, o Revenrendo Kiyoshi Tanimoto, Srta. Toshiko Sasaki e Sra. Hatsuyo Nakamura. Depois disso, Hersey induziu-os a contar tudo o que viram, sentiram, fizeram, pensaram e sofreram. Ele entrelaçou os seis depoimentos dos sobreviventes, que se cruzaram com freqüência ao longo do livro. Ao fazer isso, o autor conseguiu proporcionar maior grau de realismo ao livro, à matéria e, ao mesmo tempo, não chegou a ser sensacionalista.

Os capítulos de “Hiroshima” são dispostos de acordo com a ordem dos acontecimentos. Ou seja, um capítulo para descrever a rotina anterior à explosão da bomba (Um clarão silencioso), um capítulo para descrever a confusão imediata decorrente da explosão (O fogo), um capítulo mostrando como tudo aconteceu após os japoneses terem descoberto o que de fato havia ocorrido e suas reações (Investigam-se os detalhes), um capítulo para mostrar como ficou a cidade após a catástrofe e o início da reconstrução (Flores sobre ruínas) e um capítulo mostrando o que aconteceu depois de passados 40 anos, a trajetória das pessoas (Depois da catástrofe).

Contextualiza o relato dos seis sobreviventes num quadro maior, mostra a todos o verdadeiro impacto da bomba em Hiroshima e conscientiza as pessoas da tragédia ocorrida. John Hersey torna mais evidente o sofrimento dos japoneses e o número de mortes. Hiroshima tem forte caráter jornalístico, resultado de muita apuração, o livro-reportagem apresenta muitos dados reais.

O fato de Hersey não ter procurado nenhuma autoridade, seja ela americana ou japonesa, é porque não são fontes muito confiáveis. Isso porque as autoridades norte-americanas procurariam amenizar ao máximo a intensidade da bomba, eles não iriam dizer a pura verdade, mas sim tentariam escondê-la; enquanto as autoridades japonesas não queriam se envolver intensamente com o ocorrido, deixando assim certa lacuna. As autoridades queriam ser o mais cautelosas possível. Isso torna o livro mais “humano”, com o “povo” contando o que aconteceu. O horror aparece individualizado, com rosto. Com isso o livro passa a ser mais literário, mas não deixando de ser jornalístico.

O livro tem forte apelo emocional, mostra o sentimento das pessoas em relação à tragédia que aconteceu. Fica presente o ódio aos americanos sentido pelos japoneses, fica a marca do horror. Já no seu desfecho, no capítulo 5, que foi feito depois de 40 anos da explosão, tem um caráter mais noticioso, é dotado de muitas informações, o que é resultado de uma boa apuração jornalística. Mas é claro que o desfecho do capítulo 5 não deixa de ser emocional, não esconde os sentimentos das pessoas. Mostra também a vida das pessoas e a cidade de Hiroshima reconstruídas. E, hoje, são criadas bombas cada vez mais poderosas, o que nos faz crer que o mundo não aprendeu nada com o que aconteceu em Hiroshima. Os dados sobre armamentos nucleares e a corrida armamentista revelam a posição anti-nuclear de Hersey.

Os fatos de Hiroshima são narrados de acordo com a ordem dos acontecimentos, dentro de cada capítulo, mostrando o que cada um dos seus personagens estava fazendo antes da explosão, durante a explosão e depois dela.